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As Variações do Complexo Materno na Filha



Algures noutro post escrevi que quando falamos de complexo, instala-se inevitavelmente na nossa mente a ideia de um emaranhado emocional carregado de experiências que fomos calejando ao longo da vida e de padrões comportamentais que invariavelmente acompanham esse complexo. Essa é a ideia de um conceito Junguiano que se foi instalando na mente coletiva das várias culturas ocidentais. Vejo-me sempre obrigado a sublinhar este conceito de forma a compreendermos como a psicologia analítica valoriza estas dinâmicas e como elas se apresentam tão transparentes quando são devidamente enquadradas na realidade quotidiana.


Noutras palavras, tal como Carl Jung (1934) indica, um complexo é um grupo organizado ou uma constelação de sentimentos, pensamentos, percepções e memórias que existem no inconsciente pessoal. Ele tem um núcleo que age como uma espécie de íman que atrai ou "constela" várias experiências pessoais e arquetípicas.


Convém realçar que, apesar da conotação negativa corrente do complexo, podemos relativizar, afirmando que o complexo não é propriamente um obstáculo ao ajustamento de uma pessoa. De certa forma, são os complexos que configuram a maquinaria anímica do/a sujeito/a e que a influenciam a correr atrás de determinado objetivo. O exemplo concreto disso é o artista obcecado pela beleza que só se contentará com a realização de uma obra prima. Este pode produzir imensas obras, até de forma a aprimorar a técnica e aprofundando a consciência criativa de forma a produzir finalmente algo belo e sublime. Tal como Van Gogh, que se dedicou completamente à arte nos últimos anos de vida. Ele era um homem completamente possuído e sacrificou tudo, inclusive a sua saúde e até a vida pela pintura (Hall e Nordby, 1973). Carl Jung referia-se a este fenómeno como "paixão implacável pela criação" que acaba por dominar o artista. "Ele está fadado a sacrificar a felicidade e tudo o que torna a vida digna de ser vivida para o ser humano comum" (Vol. 15, pp 101-105). Então Hall explica que essa luta pela perfeição deve ser atribuída a um forte complexo; de outro modo, um complexo fraco iria limitar o indivíduo à produção de obras medíocres, inferiores, ou mesmo a nada.


O exemplo de um dos complexos mais sagaz e autónomos é o complexo materno (Jung, 1954). Neste complexo o núcleo deriva parcialmente das experiências raciais com as mães em geral e parcialmente das experiências da criança com a sua mãe pessoal. No fundo, as ideias, os sentimentos e as memórias relacionadas à mãe são atraídas para o núcleo e formam um complexo. Quanto mais forte for a força que emana do próprio núcleo, mais experiências ela vai atrair. Assim, dizemos que uma pessoa cuja personalidade é dominada pela mãe tem um forte complexo materno. Os seus pensamentos, sentimentos e ações serão orientados pela concepção de mãe, o que a mãe diz e faz terá um grande valor para ela e a imagem da mãe será predominante na sua própria mente (Hall, Lindzey e Campbell, 2000). No caso de um forte complexo materno no homem, este indivíduo tenta incluir a mãe ou alguma coisa com ela relacionada em todas as conversas possíveis, haja ou não cabimento para tal procedimento. Dará preferência às histórias, aos filmes e aos acontecimentos nos quais as mães desempenham um papel de relevo. Ficará na expectativa do dia das mães, do aniversário da mãe e de ocasiões que justifiquem o pretexto para homenageá-la. Tende a imitar a mãe adotando-lhe as preferências e interesses, e sentir-se-á atraído pelos conhecidos dela. Prefere a companhia de mulheres mais velhas à de mulheres da própria idade. Quando criança e a posteriori é tratado como o filhinho da mamã, continuando ao longo da vida "agarrado às saias da sua mãe" (Hall e Nordby, 1973). Todavia, também devemos refletir que este fenómeno nem sempre é forjado por sentimentos positivos. Enquadram-se também os sentimentos negativos, sendo que o complexo materno, tal como outro complexo qualquer, vive das duas faces da moeda — de onde emana a sua postividade e a sua contraparte, a negatividade — como transformadores da energia psíquica.


Tal como outro complexo, ele pode inevitavelmente assumir o controlo da personalidade. No entanto, é frequentemente invisível para a pessoa que é manipulada tal como uma marioneta. Talvez se em algum momento dissesse a Napoleão que ele era dominado pela ideia da sede de poder e pelo complexo de superioridade, talvez ele fosse responder que apenas tem ambição e que realmente é o melhor, negando todos os restantes atributos de tirano megalómano.


Em todo o caso, o complexo materno desencadeia respostas múltiplas que só podem ser entendidas à luz do desenvolvimento da pessoa, do caráter herdado da pessoa e forçosamente com as experiências dela com a sua mãe pessoal e outras figuras maternas.


Carl Jung indica de forma eloquente a expressão deste complexo no livro Os Arquétipos do Inconsciente Coletivo - Obras completas 9/1. Daryl Sharp no livro Jung Lexicon identifica alguns padrões de comportamento e manifestações psiquicas dos complexos maternos nas mulheres. Serei breve e sucinto na exposição.


Hipertrofia do elemento materno - Nesta relação, tal como Frith Luton relata, observamos que o complexo materno leva a uma hipertrofia do lado feminino ou até mesmo à sua atrofia. O exagero do lado feminino significa uma intensificação de todos os instintos femininos, sobretudo o instinto materno. O aspeto negativo é foco da mulher cujo o seu único objetivo é o parto. Para ela, o marido é obviamente de importância secundária; ele é em primeiro lugar o instrumento da procriação e ela considera-o meramente como um objeto a ser cuidado, tal como os filhos, parentes pobres, gatos, cachorros e móveis domésticos.

Neste caso, a própria personalidade é de importância secundária; sendo que ela permanece muitas vezes completamente inconsciente disso, pois a sua vida é vivida dentro e através dos outros, em identificação mais ou menos completa com todos os objetos que estão ao seu cuidado. Primeiramente, ela dá à luz os filhos e, a partir de então, agarra-se a eles, pois sem eles não tem existência alguma. Tal como Deméter, ela compele os deuses pela sua teimosa persistência em conceder-lhe o direito de posse sobre sua filha.

O seu Eros desenvolve-se somente como relacionamento materno, enquanto permanece inconsciente como relacionamento sexual e afetivo pessoal. Este Eros inconsciente poderá encontrar a sua expressão na vontade de poder, principalmente na possessão dos seu núcleo familiar de onde paira a sua energia nuclear.


As mulheres desse tipo, embora “vivam continuamente para os outros”, são, de fato, incapazes de fazer qualquer sacrifício real. Impulsionadas pela vontade implacável de poder e uma insistência fanática nos seus próprios direitos maternos, elas muitas vezes conseguem aniquilar não apenas a sua própria personalidade, como inclusive a vida pessoal dos seus filhos. Quanto menos consciente essa mãe é da sua própria personalidade, maior e mais violenta será a sua vontade de poder inconsciente.


A mente não é cultivada por si mesma, mas geralmente permanece na sua condição original, completamente primitiva, não relacionada e implacável, mas também como verdadeira, genuína e às vezes tão profunda quanto a própria natureza. Ela mesma não sabe disso e, portanto, é incapaz de apreciar a astúcia da sua mente ou de se maravilhar filosoficamente relativamente à sua profundidade;


O superdesenvolvimento do Eros - Tal como Carl Jung indica:


De modo algum se segue que o complexo induzido numa filha por tal mãe deva resultar necessariamente em hipertrofia do instinto materno. Muito pelo contrário, esse instinto pode ser totalmente aniquilado. Quando isso acontece surge em substituição um Eros superdesenvolvido, sendo que este fator induz quase sempre uma relação psíquica incestuosa e inconsciente com o pai. O Eros intensificado coloca uma a ênfase anormal na personalidade dos outros. O ciúme da mãe e o desejo de superá-la tornam-se a locomotiva dos empreendimentos subsequentes, que muitas vezes são desastrosos (Carl Jung em "Psychological Aspects of the Mother Archetype,” CW 9i, par. 164).

Uma mulher desse tipo ama episódios românticos e sensacionais por si mesma. Ela é a Nastássia Filíppovna do conto o Idiota de Dostoiévski. No fundo uma femme fatale que ao jeito de um Don Juanismo feminino representa a crápula sagaz, a vampira sedenta onde o calor quimérico representa essa mesma ausência de sangue anímico. Tal como reflete Jung, ela está interessada em homens casados, apesar de não ser por eles próprios, mas sim pelo facto de serem casados ​​e, assim, dar-lhe a oportunidade de arruinar um casamento, sendo esse o objetivo da sua manobra. Uma vez que o objetivo é atingido, o seu interesse evapora por falta de qualquer instinto maternal, e então será a vez de outra pessoa. Este tipo é conhecido por sua notável inconsciência. Para Jung, essas mulheres parecem totalmente cegas para o que estão a fazer, o que é tudo menos vantajoso para elas mesmas ou para as suas vítimas. Conclui dizendo que "eu dificilmente gostaria de salientar que para homens com um Eros passivo, esse tipo de mulher oferece um excelente gancho para as projeções da anima dos homens (ver Psychological Aspects of the Mother Archetype,” CW 9i, par. 166).


Identificação com a Mãe - No caso da identificação com a mãe pessoal, quando o Eros não flui naturalmente ficando de alguma forma enclausurado e subnutrido em algum andar da psique, é, por outro lado, alimentado o vínculo materno, acomodando a pequena e provocando a paralisia da iniciativa feminina da filha.


Neste momento podemos conceber que a criança perde dois propulsores fundamentais para a sua energia psíquica feminina - a expressão do Eros e do seu instinto materno - visto que ambos ficam para lá dos domínios da mente, nos subúrbios do inconsciente.


Em termos práticos, tudo o que sugerir o papel da maternidade, responsabilidade, relacionamentos pessoais e exigências eróticas irá despertar sentimentos de inferioridade provocando naturalmente uma ansiedade tremenda ou a resposta de fuga. Não é por acaso que estas mulheres normalmente são dotadas de uma maior fragilidade para com a vida e na própria constituição física. São lábeis emocionalmente e frequentemente medrosas quando têm de tomar uma decisão por iniciativa própria ou mudar as rotinas da sua vida.


No fundo, na mente da rapariga, tudo isto que podia ser por ela alcançada, foi antecipado pela sua mãe - Deusa heroína de toda a superação feminina - completamente inatingível para a pobre e dócil rapariga.


Carl Jung, de forma sagaz, repara que cresce um conceito afetivo dual dentro da mente destas jovens. Por um lado contentam-se em agarrar a sua mãe de forma altruísta, enquanto que ao mesmo tempo se esforçam inconscientemente, em contra vontade, de tiranizar sobre ela, naturalmente sobre a máscara de completa lealdade e devoção.


A nível clínico a minha experiência demonstrou-me que numa segunda etapa da psicoterapia estas jovens moças tendem a manifestar alguma impulsividade e desprezo pela figura materna. De certa forma ainda inconscientes que esse material é fruto do seu complexo e foro das suas projeções. Por vezes essa energia devidamente captada em análise pelo terapeuta pode ser vital para trazer esses demónios à consciência.


A sombra neste caso manifesta-se em tons bélicos. De facto, esta identificação materna também pode surgir de um vínculo exagerado e exacerbado pela própria mãe para com a filha. De alguma forma é a Deméter que percorre o mundo inteiro por Perséfone, enquanto a última é arrastada por Hades (Deus do inferno) até aos subsolos. A relação é manifesta neste mito, quando o vínculo é de alguma forma quebrado e Deméter corre numa busca incessante pela sua filha (apesar de infrutífera) e acaba por num ataque de desespero lançar uma maldição que provoca a infertilidade no solo. Tal como no mito, se a própria mãe é dominada também pela sua sombra, pode tentar suprimir o desejo de um Eros remanescente da sua filha, tentando esterilizar a expressão deste.


É aqui que se dá o efeito de Eros sobre Psique e outra história encantada se forma. Contudo existem muitas cartas no baralho e a jovem projeta imensos desejos inconscientes sobre o jovem que pode sair um verdadeiro valete, ou por infortúnio do destino, um joker e trickster que use e abuse do seu pueril coração. Não obstante, um mundo interno é abalado e a jovem é levada por um sentimento até então desconhecido.


Aqui é fundamental recorrer às ideias de Jung, pois tal como ele indica, estas raparigas sem sangue não estão imunes ao cúpido e o pior é que pagam grandes preços por isso mesmo. Ela simplesmente não sabe de nada. Ela é tão inexperiente, tão inocente e necessitada, que até o mais gentil dos rapazes se torna um raptor ousado que rouba brutalmente uma mãe amorosa da sua filha.


É necessário entender que existem definitivamente riscos! Primeiro, elas são tão vazias que um homem é livre para imputar nelas tudo o que ele quiser. Além disso, elas são tão inconscientes que o próprio inconsciente coloca inúmeros tentáculos invisíveis, verdadeiros tentáculos de polvo, que sugam todas as projeções masculinas; e isso agrada enormemente os homens. Tal como Jung indica, toda essa indefinição feminina é a contrapartida ansiosa da determinação e obstinação dos homens, que só pode ser satisfatoriamente alcançada se um homem conseguir livrar-se de tudo aquilo que lhe é incerto, ambíguo, vago e confuso, projetando-o sobre algum exemplo encantador de inocência feminina. Por causa da passividade característica da mulher, e os sentimentos de inferioridade que a fazem continuamente representar os inocentes, o homem encontra-se num papel atraente: ele tem o privilégio de aguentar as fraquezas femininas familiares com verdadeira supremacia, ainda que em jeito de tolerância, ao nível de um verdadeiro cavaleiro. (Felizmente para ele é que permanece também ignorante do facto de que essas deficiências consistem em grande parte das suas próprias projeções.) O notório desamparo da moça é uma atração especial. Ela é tanto um apêndice da sua mãe que só pode flutuar de forma dúbia quando um homem se aproxima. Para a mãe tanto pode representar a aproximação do Barba Azul ou do príncipe encantado que irá soltar a donzela dos seus terrores, mas que não a pode afastar em demasia ou a fada mãe vira a Maleficent.


Resistência à mãe - O terminus do processo do cluster anterior pode antecipar esta etapa. Por isso, mais do que expressões do complexo materno distintas em cada pessoa, Jung entendia que estes elementos poderiam estar interligados por fases ou etapas. É fácil de entender! Se imaginarmos uma jovem que viveu sempre nas costas da sua mãe venerando-a conscientemente e amaldiçoando-a inconscientemente por isso, quando desperta dessa realidade, como a Rapunzel que sai da sua torre, toda uma nova realidade e vida psíquica se instala. Daí que o Eros na expressão afetiva com um rapaz, possa ser o rapto da jovem inocente Pérsefone até aos subúrbios da sua existência apagada pela atrofia materna.


É neste momento que se pode desencadear a resistência materna e a superação do complexo por atrofia.


Então, tal como Jung indica, estes três tipos extremos estão ligados por muitos estágios intermediários, dos quais menciona um exemplo importante. Neste tipo intermediário particular, o problema não é tanto um superdesenvolvimento ou uma inibição dos instintos femininos, mas mais uma resistência esmagadora à supremacia materna, frequentemente excluindo tudo o demais.


Neste caso extremista encontramos o exemplo supremo do complexo materno negativo. O lema deste tipo é: Qualquer coisa, desde que não seja como a mãe!


Por um lado, temos um fascínio que nunca chega ao ponto de identificação; do outro, uma intensificação de Eros que se esgota na resistência ciumenta. Esse tipo de filha sabe o que não quer, mas geralmente está completamente no mar quanto ao que ela escolheria como seu próprio destino. Todos os seus instintos estão concentrados na mãe na forma negativa de resistência e, portanto, não são úteis para ela na construção da sua própria vida.

Se ela conseguir se casar, ou o casamento será utilizado com o único propósito de escapar da sua mãe, ou então um destino diabólico a surpreenderá com um marido que compartilha todos os traços essenciais do caráter da sua mãe.


Por outro lado, se temos um equilíbrio heróico e afável por parte paterna, a moça ao renegar a sua mãe irá competir contra ela em favor do seu animus. Esta mulher destaca-se geralmente nas atividades da Logos, onde a sua mãe não tem lugar. Encontramos nestas mulheres figuras distintas, sagazes, com atitude executiva, normalmente controlando e gerindo grandes corporações através da sua enorme competência técnica e frieza para lidar com as situações da forma mais calculista possível.


Se eventualmente esta mulher superar a sua atitude meramente reativa em relação à realidade, poderá mais tarde na vida apreciar de modo mais profundo e intimista a sua feminilidade. Graças à sua lucidez, objetividade e masculinidade, a mulher deste tipo é frequentemente encontrada em posições importantes nas quais a sua qualidade materna descoberta tardiamente, guiada por uma inteligência fria, exerce uma influência muito benéfica. Essa rara combinação de feminilidade e compreensão masculina mostra-se valiosa no domínio dos relacionamentos íntimos, bem como em questões práticas. [Ibidem, pag. 186.].

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Dr. João Diogo Vedor

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