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O Bailado Psíquico (Parte I)

Atualizado: Fev 22


O Bailado Psíquico (Parte I) João Diogo Vedor

— Aceitas dançar comigo? – pergunta ele ainda tímido depois de ter consumido dois shots diretos de tequila para ver se desinibia.


A história para ele não começa aqui, mas muito antes de a abordar fisicamente, uma multidão de projeções e fantasias atravessam a sua cabeça. Ainda longe do contacto direto, o seu corpo responde a múltiplas alterações de calor e êxtase, o coração começa a palpitar e as pequenas gotículas de suor aparecerem sorrateiramente pela ponta da testa. Quantas vezes ele já tinha visto aquela mulher, mas o corpo voltava sempre a levar a melhor sobre ele e sobre todos aqueles projetos, que ali ficavam pendentes na sua cabeça de cada vez que a via. Quantas vezes também, ele imaginou e preparou a sua abordagem aquela bela e contagiante jovem?


Na mente daquele rapaz essa abordagem era mesmo processada como se tratasse de um projeto de arquitetura ou de engenharia, onde vários planos eram rasurados e depois da exaustão e da incapacidade, abatido, lá esmagava mais uma vez o plano pronto a enviá-lo para o caixote das frustrações. Repetia o processo uma vez... Repetia duas vezes... Três vezes... Quantas fosse necessário, porque por vezes chega a fantasia, por vezes chega a imaginação para nos alegrar a alma, aclarar a mente e, momentaneamente, dar um pequeno vislumbre do Eros ao paladar.


Contudo algo parecia ter mudado naquele dia, ou melhor, naquela noite...


Seria a noite em si?! Na verdade, a noite é sedutora, é pecaminosa, é sábia e irresistível como o perfume de uma mulher. O povo ancestral, que de resto tanto sabe, declama sofregamente que a noite é boa conselheira... Portanto, seria realmente a noite a sua boa conselheira nesse dia? Mais uma vez ele estava trocado, sem ainda estar sequer tocado, porque bastava o momento “antes de a conhecer” para o afetar profundamente. Ele estava inconsciente de todos os botões que ela apertava na sua alma sem sequer os pressionar.


Perdido na sua aparente agitação e alienado nos seus pensamentos, uma simples troca de olhares foi capaz de modificar, mais uma vez, a sua temperatura corporal. Repentinamente, tal como um flash, um rasgo gélido subiu pela sua coluna, bloqueando instantaneamente os seus movimentos. Naquele momento ele soube que a bela donzela tinha também toque profundo de medusa. Pobre coitado... Não bastava o cúpido ter feito das suas, já ele tinha percebido que o Eros tinha revelado a sua preferência e, por infortúnio das coisas da vida, não estaria do seu lado. No fundo é assim que o Eros nos domina, estando ausente de nós, estando lá fora a antecipar todos os nossos movimentos. O mais caricato é que, apesar de tudo, o jovem era inteligente, mas pouco maduro, sabia das coisas conceptuais, mas muito pouco das coisas da vida. Na abstração da vida Ele podia ser um ótimo concorrente, mas no jogo concreto da realidade era um mero peão subjugado à decisão das grandes peças.


Ela noticiou o que estava a acontecer com aquele pobre homem e pareceu dessensibilizar com um sorriso ternurento. Seria gozo? Ou seria a profunda delicadeza da jovem? A verdade é que não funcionou favoravelmente para ele, pois só o tornou idiota a quadruplicar, devido à figura que ele (re)apresentava, pelo que ele próprio sentia, pelo que ele pensava que ela tinha descoberto e, por último, pelo que ela já sabia há muito tempo.


A mulher é assim... Não sabemos bem o porquê. De facto, não sei se a questão é tão complexa como a própria mulher em si. De qualquer forma, Deus, a biologia, o desígnio, a sociedade ou aquilo que o que o leitor lhe quiser chamar, favoreceu a consciência emocional na mulher. Por isso ela é precocemente mais madura do que o homem. O Eros beneficia a mulher, porque prematuramente Ela acarinha-o, apaixonando-se desde logo pelos seus romances e maravilhosos contos de fadas, vivendo essas mesmas histórias exaustivamente e representando o próprio Eros nas suas fantasias pueris. É ele que catalisa o seu desenvolvimento como símbolo feminino, ampliando a sua sensibilidade nas relações humanas, ampliando assim a empatia como, inclusivamente, o próprio poder maquiavélico, se a Mulher assim o desejar. Então ela finalmente responde:


— Agora não posso, desculpa. Estou ocupada. – Parecendo desprezar completamente a investida do jovem, retomando prontamente a leitura do seu livro e desviando completamente o olhar, para que o rapaz não fosse capaz de responder.


Esta é uma ótima técnica, porque os homens costumam ser muito diretos e pouco periféricos. Entendem na relação o que esse pequeno feixe, que focalizaram, disponibiliza imediatamente. Os Homens definem objetivos muito concretos e esbarram quando não atingem o seu êxito, enquanto a mulher dá prioridade à exploração não sendo normalmente dominada pela impulsividade.


Totalmente aniquilado pela reação da jovem, cabisbaixo e até castrado, diria eu, um turbilhão de emoções assaltava-o em sentido crescendo na orquestra anímica do jovem quando de repente...


­­— Calma. Já vais embora?! – Surpreendeu a jovem com um suave toque no ombro do rapaz – Só queria ver se era capaz de atrapalhar-te mais um pouquinho. Não me leves a mal pelo meu humor ácido.


­— Cre... cr... Credo! CLARO! Es ess... Está tudo bem... - atrapalhou-se definitivamente o jovem sentindo verdadeiramente o processo de pigmentação a tingir a sua cara de vermelho vivo.


O sucedido provocou um sorriso inocente na jovem que também ela foi surpreendida na sua própria ratoeira desviando o olhar para o chão e trincando suavemente o lábio inferior.


Provavelmente, um dos elementos que desperta mais o interesse numa mulher é o mistério, não só porque a anseia em território desconhecido, mas porque perde o controlo sobre o esquema. Na verdade, quantas vezes a mulher sonha em perder o controlo que lhe foi tiranicamente concedido.

Se para o homem a paixão que nutre pela mulher é inconscientemente uma experiência imediata sobre forças ultra-humanas que se expressam pelo símbolo da deidade, para a mulher o homem é uma amalgama entre o sonho das suas fantasias e as micro representações dos homens com quem se cruzou na realidade. A mulher será, portanto, tanto permeada pelo sonho, como esterilizada pela sua incrível memória emocional.


Ali, naquele momento, dois puros inocentes/inconscientes (ela mais consciente do que ele) foram tocados definitivamente pelo Eros. Ele ativamente pela flecha e ela passivamente pela recetividade prudente.


Levaram um tempo a iniciar a dança naquele barco rumo a destino incógnito até que lá cruzaram os dedos. Fisicamente só quando tocamos as coisas é que deixamos as nossas impressões digitais, mas no cruzamento daquelas duas almas eles sabiam no seu íntimo, que era a sua identidade que estava a ser marcada uma na outra. O momento era propício e a paixão florescia.


Dizem os loucos que quem não percebeu este bailado ou ainda não viveu, ou ainda continua inconsciente.


Continua...


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