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A Maravilhosa História de Eros & Psique - O Princípio da Transformação (Trecho)



Na mitologia, Eros é o Deus de todas as conexões emocionais: A sexualidade, a amizade, as relações conjugais, os passatempos, as artes e em si mesmo o interesse pela profissão. Por exemplo, um guerreiro sem Eros converte-se aos nossos olhos num mercenário, enquanto que através do Eros um soldado pode converter-se num defensor dos ideais. Do mesmo modo, uma mãe protetora sem Eros torna-se sufocante, talvez demasiado preocupada pelo material, o alimento, a comodidade. Enquanto que na posse do Eros guiará as suas conexões, os seus filhos sentir-se-ão amados pelo seu valor próprio, criando um ambiente pleno de ideais e valores nutritivos.


Todavia, Eros é um demónio e como tal provoca também confusões, conflitos, desespero, etc. Todos os que já estiveram apaixonados alguma vez sabem dos sentimentos controversos da experiência: Sofrimento, saudade, frustração, alegria, gozo...


Eros é, portanto, uma força que aglutina elementos do núcleo intrapsíquico, que de alguma forma conecta os nossos complexos. Conecta-nos com o ambiente, as amizades, o casal, os filhos, os companheiros de trabalho, etc. Pelo que Eros é, antes de tudo, um movimento em busca de união. É um princípio transformador que ao transformar se transforma. Externamente o amor flui para unir duas almas; Internamente para promover a totalidade mente-corpo – a natureza animal e a natureza espiritual.


Esta indagação pela união No externo e No interno é representada de forma maravilhosa no conto de Eros e Psique. Este conto encontra-se embutido no livro “O Asno de Ouro” de Lúcio Apuleio:


Psique era uma das três filhas de um rei. As suas belas irmãs foram casando, no entanto, Psique era tão bela que o povo a adorava, sendo que de todos os lados peregrinos faziam caminho para poder venerá-la e todos acabavam dizendo que ela própria era a encarnação de Vénus. Porém nenhum homem ousava casar com ela. Tal veneração provocou o ciúme de Vénus que enviou furiosamente o seu filho Eros com a missão de cravar uma das suas flechas nela, para que Psique se apaixonasse pelo mais abjeto dos homens. Quando Eros vai para lançar a sua flecha, por erro, acerta em si próprio ficando prementemente apaixonado por Psique. No auge do seu amor, Ele leva-a para um castelo de onde mãos e vozes invisíveis tratam cuidadosamente dela; a cada noite Eros chega e vivem o seu profundo amor no mistério da escuridão. Psique está totalmente proibida de conhecer o seu amado, que seguramente não quer que o conheça por ser um homem horroroso e terrível. Entre idas e vindas a curiosidade de Psique vai aumentando de tal forma, que decide desmascará-lo. Assim, durante a noite enquanto ele dorme, Psique acende uma lâmpada e aproxima-se para vislumbrar o misterioso sujeito. Perante a luz da lâmpada Eros brilha em toda a sua beleza, todavia, enquanto Psique admira tremenda beleza, um pouco de cera da lâmpada é derramada sobre o corpo desnudado de Eros. Este desperta de imediato muito zangado e magoado pela conduta de Psique, pedindo prontamente que esta saísse, avisando que ela teria provocado a separação dos dois. Contudo, Psique engravida nessa mesma noite, sendo que a semente estava lançada, símbolo desta profunda união.




Psique tenta retê-lo, no entanto, toda a tentativa é forçada e em vão. Psique acaba por se afundar no desespero mais absoluto, desistindo de si própria deseja o suicídio, contudo acaba por ser impedida pelo deus Pan. Ela refere que não pode viver sem Eros, sendo que Pan aconselha Psique a procurar o templo de Vénus. De seguida, uma longa jornada aguarda Psique no caminho até à morada da Deusa enraivecida - Vénus. Ali a Deusa impõe trabalhos árduos e heróicos a Psique, que ela vai realizando através da ajuda de alguns seres divinos.


Enquanto isso, Eros regressa a casa da sua mãe, sofrendo com a ferida infligida por Psique. Durante a provação, Psique realiza todas as provas com êxito, mas a última tarefa consistia em ir a Hades buscar uma caixa de creme de beleza da deusa Perséfone. Psique consegue ir buscar a caixa, mas pelo caminho não consegue evitar de sentir curiosidade e abre a caixa, colocando um pouco do creme. Isto faz com que adormeça num sono de morte. Num ápice Eros acorre em seu socorro, salvando-a desse possível estado último. Finalmente Psique é aceite e celebram as bodas. Da sua união nasce uma filha que se chamará Hedone, ou a Deusa do prazer.




Na psicologia analítica, esta história é rica em conteúdo simbólico, podendo ser amplamente interpretada em diferentes dinâmicas da vida humana. Hillman interpreta o conto como a necessidade que a alma tem de amor, de Eros e também da necessidade que tem o arquétipo de Eros em humanizar-se.


Para Donald Kalsched, o conto descreve o inocente e atribulado ego representado por Psique, que é resgatado por Eros dentro de um “Sstema Artquetípico de Auto-Cuidado”, do paciente traumatizado. O Eu traumatizado para poder manter-se em pé, necessita de levantar diversas barreiras defensivas; o Eu defendeu-se da agressão identificando-se com certos aspetos arquetípicos, representado por Eros no castelo encantado. Porém, chega um momento, muitas vezes através de uma crise, de uma enfermidade, que indica que aquelas defesas, que foram um dia úteis, agora aprisionam o Ego, incapacitando o seu crescimento, de se fazer ao mundo, de amar e de se realizar. A curiosidade de Psique por conhecer Eros é uma necessidade de conhecer o amor, de lhe dar forma, a concreção ao arquétipo. É então uma necessidade anímica.


O par Eros/Psique representa a união pessoal/transpessoal, interior/exterior, que foram extirpados pelo trauma. Eros/Psique = Self/Ego, estas instâncias encontram-se separadas, sem relação e necessitam inevitavelmente de se reunir de novo. Para isso é necessário adquirir novas capacidades de relação com o interno. Tal capacidade tem frequentemente ficado estagnada no passado e é aí que vão os passos da análise.


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Trecho do capítulo redigido por Doutor Concha Pazo, psicólogo analítico membro da Sociedade Espanhola de Psicologia Analítica, em "A Hipótese Espantosa de C. G. Jung". Texto adaptado por Dr. João Diogo Vedor, com a devida permissão da Editora Sapientae. Todos os direitos reservados ©




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