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A Dívida Individual

Atualizado: 23 de Abr de 2019




Ele ou ela não é somente endividado por aquisição material, apesar de hoje em dia esse fenómeno caraterizar substancialmente a nossa sociedade. Parece que derivado desse sintoma existem pessoas que optam por preencher o vácuo existencial e lacunas psicológicas, com objectos físicos e palpáveis. Declaro isto pura fantasia, visto que não dominamos concretamente a construção da nossa psique. Os objetos que realmente formam os blocos sólidos na construção da nossa psique, não são inteiramente da nossa competência.


Chega a ser paradoxal, não é? O que nomeamos de nossa psique nunca ser realmente nosso. Talvez seja por isso que procuramos fora, no objecto, no concreto, no palpável, sentenciar esse mesmo destino. Acredito que na maioria das vezes este impulso seja tomado inconscientemente, contudo, nessa mesma maioria, as pessoas pintam de forma muito consciente as motivações da sua vontade. Todavia, o mestre que orquestra essa ilusão não é nada mais, nada menos, do que o nosso Ego. Com efeito, o que é guiado através da sede instantânea do Ego não chega a formar esse bloco sólido necessário à nossa constituição. É nada mais do que isso, instantâneo, arenoso, desmoronando rapidamente ao primeiro elemento caótico.


Não assumo somente, tal como Alfred Adler, que a maior motivação da aquisição do material, com o propósito da ostentação, esteja explicitamente relacionada com a sede de poder. Apesar de, na sociedade atual, esse sintoma ganhar relevo pela escassez da indagação do Homem, que lhe poderia propor algum contacto com os seus objectos internos. Desta escassez surge o inevitável consumismo e o ganha pão da banca – o crédito.


Nesse propósito a psicologia não é a salvação para nenhuma alma e quem garante isso estará também a iludir quem urge em seu socorro. Na verdade, esse nem é o nosso objeto concreto de ação. A psicologia será no mínimo, tal como reconhecido por Viktor Frankl, o método de cura que possibilita a cicatrização e reconstrução das partes dissociadas. É, portanto, um processo de indagação, formação, nutrição, mas também de perda, de dor, de abandono pelas partes que não se ligam com a verdadeira essência da totalidade.


Deste modo, de todos os créditos que acione ao longo da vida, centre a aposta em si e no que realmente possibilita a sua construção enquanto indivíduo. Uma construção reforçada a partir de dentro e não dos elementos externos a si mesmo. Se o tesouro interno for movimentado pelo aparente, a máscara será o nosso utensílio predileto, pois o que gera a sua energia é o julgamento alheio e não o seu. Cativar o julgamento alheio coloca a tónica na aquisição cosmética, para agradar os outros ao sabor das tendências. Ora a busca torna-se exaustiva, o pagamento excede o saldo corporal e a dívida aumenta. Com o aumento da dívida o uso esgotante das máscaras dissocia-nos da nossa verdadeira essência, até ao dia em que o peso do calote provoque o choque violento com a realidade.


No entretanto, algo fica por dizer...


O direito destas imagens é exclusivo de Hermann Lederle ©

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Psicólogo Dr. João Vedor © 2020